Quem é da Póvoa lê o texto nas costas da t-shirt Ala-Arriba sem parar, porque reconhece cada palavra. Quem não é, lê e fica com perguntas. Este é o dicionário para essas perguntas, com as palavras e expressões da estampa, e mais algumas.
Uma língua muito própria
Os poveiros sempre falaram uma língua muito própria. Nos anos 30 do século passado, o etnólogo António dos Santos Graça (1882–1956) recolheu-a no livro O Poveiro (1932), com um vocabulário de palavras que só quem vivia da pesca e do mar entendia. Por exemplo: abinhar, que é torcer o fio das redes; adornar, que é inclinar o barco para um dos lados; a caça, o conjunto de redes com que o barco anda ao mar; e acadimar, que é sujeitar-se ao trabalho. A própria escrita tinha um código à parte, as siglas poveiras.
Identidade
Poveiro / poveira
Quem é natural da Póvoa de Varzim, ou pescador da Póvoa. Também se diz povoense. “Poveira” é ainda o nome de um tipo de lancha usada pelos pescadores da cidade: a Lancha Poveira.
Poveirinhos pela graça de Deus
Uma das expressões mais carinhosas da identidade poveira. Segundo a tradição, tem origem numa viagem de D. Luís I que, de um navio junto à costa, viu uma lancha poveira. Está ligada à expressão Reino da Póvoa, a forma como os poveiros falam da sua terra como um mundo à parte.
Raça Poveira
Hoje é sobretudo uma expressão de garra e valentia, muito usada no futebol e para descrever “um poveiro de gema”. Tem uma história: no século XIX, escritores como Ramalho Ortigão (em As Praias de Portugal, 1876) descreveram o pescador poveiro como uma “raça” à parte do resto do litoral português, e os próprios pescadores chegaram a acreditar nisso. A ideia de “raça” não tem base científica e o que ficou foi o orgulho.
4490
O código postal da Póvoa. Quem emigrou e ainda o sabe de cor percebe o que isto significa.
Futebol
Alvinegro, Lobos do Mar e 1915
São alcunhas do Varzim Sport Club, o clube da cidade, cujas cores são o preto e o branco. “Lobos do Mar” também é uma alcunha do clube, e 1915 é o ano em que foi fundado, a 25 de dezembro. Os adeptos chamam-se varzinistas.
Mar e comunidade
Lancha poveira e “Fé em Deus”
A lancha poveira é o barco tradicional dos pescadores da Póvoa. Fé em Deus é o nome de uma delas, reconstruída pelo Museu Municipal. Podes ler mais em Fé e mar: São Pedro.
Sigla
A “assinatura” de uma família poveira, um símbolo usado para marcar barcos, redes e objetos, que funcionava como um brasão. Há um artigo inteiro sobre siglas poveiras.
Tricana
A rapariga poveira de traje vistoso, de xaile, avental e chinelo de tacão. Conhece a história das tricanas.
Bairro e rusga
Os seis bairros tradicionais (Belém, Matriz, Mariadeira, Norte, Regufe e Sul) competem nas festas de São Pedro, e cada um tem a sua rusga, um desfile com coreografias e cantares. Podes ler mais em São Pedro.
Cego do Maio
O pescador e salva-vidas que é o grande herói poveiro. Lê a história dele.
Conversa de poveiros
'Tchó', 'Que dizes?'
O sotaque e a forma de falar da Póvoa são únicos e irrepetíveis, e o “Tchó” é uma das suas marcas mais reconhecíveis. Nem todos os poveiros o dizem, mas toda a gente o reconhece, porque é uma expressão que se ouve por toda a cidade. É associado à gíria típica das Caxinas, a comunidade piscatória vizinha, em Vila do Conde, e diz-se que vem de “cachopa”, a rapariga na linguagem do Norte. Pode vir precedido de um clássico “Ai!” e seguido de um “Pá” e/ou de um “Que dizes?”. Uma conversa poveira pode soar assim: “Ai! Tchó, pá, que dizes?”
Porque está tudo isto na t-shirt Ala-Arriba
A coleção Ala-Arriba da 080AYA é uma coleção que celebra a força da comunidade poveira, e uma comunidade reconhece-se pelas palavras. O texto nas costas da t-shirt é um pequeno dicionário afetivo: quem é da Póvoa lê-o como uma conversa em casa, e quem não é fica com vontade de perguntar.